Turbidez alta, picos de vazão e risco de autuação: veja como ajustar dosagem de coagulante e floculante antes das chuvas.
Introdução
Setembro é o mês de arrumar a casa antes da chuva chegar com força. Toda operação que trabalha com captação de água bruta ou tratamento de efluente sabe o que vem pela frente: turbidez disparando em poucas horas, vazão que dobra sem aviso e uma janela cada vez menor para reagir sem comprometer o lançamento. Quem espera o primeiro pico de turbidez para revisar a dosagem já está atrasado. Este artigo traz o que temos visto funcionar em campo para chegar no período chuvoso com a operação — e a conformidade — sob controle.
Por que a chuva muda tudo na coagulação
Água de chuva carrega carga superficial: sedimento de solo exposto, matéria orgânica de vegetação, resíduo de áreas urbanas e industriais no entorno da captação. O resultado prático é turbidez que pode saltar de poucas dezenas de NTU para várias centenas em questão de horas, especialmente na primeira chuva forte depois de um período seco — o chamado “first flush”, que arrasta tudo que se acumulou no solo e nas galerias.
O problema não é só o valor absoluto da turbidez. É a mudança na natureza das partículas. Solo erodido tem características de coagulação diferentes de algas ou de material orgânico dissolvido, que costuma predominar em períodos secos. Uma dosagem calibrada para o padrão de estiagem simplesmente não funciona igual quando a matriz de partículas muda — e o operador que só reage ao NTU do momento, sem entender essa mudança de composição, corre atrás do problema o mês inteiro.
Ajuste de dosagem: o que revisar antes do pico
Refaça o jar test com água de chuva simulada ou recente. Não dá para confiar só na curva de dosagem levantada no período seco. Se possível, colete amostra logo após uma chuva de teste (ou compare com o histórico do ano anterior na mesma época) e rode o ensaio de bancada para encontrar a dosagem ótima de coagulante para essa nova faixa de turbidez.
Revise a faixa de pH de coagulação. Em turbidez muito alta, a demanda de coagulante aumenta, e isso pode puxar o pH para fora da faixa ótima do produto usado (sulfato de alumínio, cloreto de polialumínio ou cloreto férrico, por exemplo). Vale ter o alcalinizante disponível e calibrado, não só o coagulante.
Ajuste também o floculante — não só o coagulante. Com mais sólido em suspensão, o floco formado pode ficar mais frágil ou mais pesado, dependendo do tipo de partícula. Polímero aniônico e catiônico se comportam diferente diante de carga superficial vinda de solo erodido; vale reavaliar o tipo e a dosagem de polímero, não só aumentar a quantidade do que já está em uso.
Tenha uma curva de dosagem por faixa de turbidez, não um número fixo. O mais eficiente operacionalmente é ter degraus definidos — por exemplo, dosagem para até 50 NTU, de 50 a 200 NTU, acima de 200 NTU — com ajuste rápido de bomba dosadora conforme a leitura do turbidímetro on-line, sem depender de recalcular tudo a cada pico.
Picos de vazão: o outro lado do problema
Chuva forte também significa aumento de vazão afluente, seja por infiltração na rede coletora (no caso de ETEs) ou por maior captação de água bruta (no caso de ETAs). Isso reduz o tempo de detenção hidráulica nos tanques de coagulação, floculação e decantação — exatamente o momento em que a água mais precisa de tempo de contato.
Na prática, isso significa:
- Verificar se a capacidade das bombas dosadoras acompanha o pico de vazão sem perder proporcionalidade (dosagem em mg/L, não em volume fixo por hora).
- Ter um plano de contingência para picos que ultrapassem a capacidade de projeto — inclusive critério claro de quando acionar bypass controlado, sempre dentro do que a licença de operação permite.
- Monitorar decantadores e filtros com mais frequência nesses dias — arraste de sólido costuma aparecer primeiro ali, antes de virar problema na saída.
Cuidados regulatórios para não ser pego de surpresa
Picos de vazão e turbidez são exatamente o cenário em que mais acontecem não conformidades de lançamento — e é também quando a fiscalização, historicamente, presta mais atenção. Alguns pontos que valem revisão agora, antes da chuva chegar:
- Confirme os limites de lançamento aplicáveis (CONAMA 430 e normas estaduais complementares, como as da CETESB em SP) para os parâmetros mais sensíveis a picos de vazão: sólidos em suspensão, turbidez e, quando aplicável, metais associados ao coagulante usado.
- Documente os eventos de pico. Registro de vazão, turbidez de entrada e saída, e dosagem aplicada durante o evento é a melhor defesa caso haja questionamento posterior — e também o material mais valioso para ajustar a operação no ano seguinte.
- Revise se a licença de operação prevê algum regime especial para eventos de chuva intensa (bypass emergencial, por exemplo) e se os critérios de acionamento estão claros para quem está no turno.
Conclusão
Período de chuvas não precisa ser sinônimo de operação no limite. Com a curva de dosagem revisada, o alcalinizante calibrado e o registro de eventos em dia, dá para atravessar os picos de turbidez e vazão sem comprometer a qualidade do efluente nem a conformidade regulatória. Se quiser revisar a dosagem da sua operação para o período chuvoso com nosso time técnico, é só chamar a Dioxsan no WhatsApp.

